- DECLARAÇÃO DE POLÍTICA MONETÁRIA
CONFERÊNCIA DE IMPRENSA
Christine Lagarde, presidente do BCE,
Boris Vujčić, vice-presidente do BCE
Frankfurt am Main, 29 de outubro de 2026
Boa tarde, o vice-presidente e eu damos-lhes as boas-vindas à nossa conferência de imprensa.
O Conselho do BCE decidiu hoje manter as três taxas de juro diretoras do BCE inalteradas. Os preços dos produtos energéticos continuaram a subir, representando riscos em sentido ascendente para as perspetivas de inflação e em sentido descendente para as perspetivas de crescimento. Embora os efeitos do choque energético ainda não se tenham feito sentir por completo, a inflação subjacente permaneceu globalmente estável até à data e não se verifica uma resposta significativa dos salários nesta fase. É provável que a maior magnitude e duração do choque energético, assim como as implicações em termos de efeitos indiretos e de segunda ordem, conduzam a um aumento da inflação e a uma diminuição do crescimento. As condições de financiamento tornaram-se mais restritivas desde a nossa anterior reunião, o que provavelmente pesará sobre a inflação e o crescimento. Estamos empenhados em definir a política monetária de modo a assegurar que a inflação estabiliza no objetivo de 2% a médio prazo.
Permanecemos bem posicionados para navegar a atual incerteza elevada. Seguiremos uma abordagem dependente dos dados e reunião a reunião na definição da orientação apropriada da política monetária. Mais especificamente, as nossas decisões sobre as taxas de juro basear-se-ão na avaliação das perspetivas de inflação e dos riscos em torno das mesmas – à luz dos dados económicos e financeiros que forem sendo disponibilizados –, bem como da dinâmica da inflação subjacente e da força da transmissão da política monetária. Não nos comprometemos previamente com uma trajetória de taxas específica.
As decisões hoje tomadas estão descritas num comunicado disponibilizado no nosso sítio Web.
Apresentarei agora mais pormenorizadamente como consideramos que a economia e a inflação evoluirão e, em seguida, explicarei a nossa avaliação das condições monetárias e financeiras.
Atividade económica
Os dados que têm vindo a ser disponibilizados apontam para uma continuação da expansão da economia da área do euro no terceiro trimestre do ano. Os serviços registaram uma recuperação, após o enfraquecimento observado no início do conflito no Médio Oriente. A indústria transformadora, os serviços digitais e as exportações beneficiam do investimento empresarial relacionado com a inteligência artificial. A despesa pública em infraestruturas e defesa está igualmente a apoiar a atividade. Estes fatores deverão continuar a sustentar o crescimento no curto prazo. Paralelamente, os novos aumentos dos preços dos produtos energéticos afetaram a confiança dos consumidores, sendo provável que os custos de financiamento mais elevados pesem sobre o crescimento.
A taxa de desemprego manteve-se em 6,4% em agosto. O crescimento do emprego e da população ativa permanece fraco, enquanto a produtividade registou um aumento gradual.
No médio prazo, a recuperação da confiança e dos rendimentos reais, impulsionada pela descida gradual dos preços dos produtos energéticos e por um mercado de trabalho robusto, deverá estimular a procura interna. O investimento em atividades relacionadas com a inteligência artificial e a despesa pública em infraestruturas e defesa também deverão continuar a apoiar o crescimento. O crescimento das exportações deverá aumentar, em resultado do reforço da procura externa.
Um crescimento potencial mais elevado exige reformas estruturais e tem de assentar em finanças públicas sólidas. A sustentabilidade orçamental constitui uma âncora crucial para a estabilidade económica em geral. As respostas orçamentais ao choque energético devem ser temporárias, direcionadas e adaptadas. É fundamental simplificar e harmonizar as regras no mercado único da União Europeia, acelerar a transição energética e concluir a união da poupança e dos investimentos, a fim de tornar a nossa economia mais dinâmica e resiliente. Com a entrada na fase final do processo para acordar o quadro jurídico do euro digital, reiteramos a importância de chegar a acordo sobre o “Pacote Moeda Única” o mais rapidamente possível.
Inflação
A inflação subiu de 3,2% em agosto para 3,8% em setembro. A inflação dos preços dos produtos energéticos apresentou um aumento pronunciado, situando-se em 18,9%, o que compara com 14,3% em agosto. Os preços do gasóleo e da gasolina alcançaram novos máximos em setembro, refletindo, em parte, margens de refinação elevadas. A inflação excluindo preços dos produtos energéticos subiu de 2,1% em agosto para 2,3% em setembro. A inflação dos preços dos produtos alimentares aumentou para 1,3%, em comparação com 1,1%. A inflação dos preços dos serviços subiu de 3,0% em agosto para 3,2% em setembro, ao passo que a inflação dos preços dos bens desceu de 1,2% para 1,1%.
Os indicadores da inflação subjacente permaneceram globalmente estáveis, ainda que as fases iniciais da cadeia de preços apontem para pressões em sentido ascendente. As pressões sobre os salários mantêm-se moderadas. A remuneração por trabalhador registou um crescimento de 3,3% no segundo trimestre, o que compara com 3,6% no primeiro trimestre, tendo o aumento da produtividade ajudado a conter o crescimento dos custos unitários do trabalho. Numa análise prospetiva, o instrumento de acompanhamento dos salários pelo BCE (o “ECB wage tracker”) sugere que o crescimento dos salários negociados oscilará entre 2,5% e 2,8% nos restantes meses de 2026 e será, em média, de 2,6% nos três primeiros trimestres de 2027. As expectativas de inflação em horizontes mais curtos aumentaram, mas a maioria das medidas das expectativas de inflação a mais longo prazo situa-se em torno de 2%, apoiando a estabilização da inflação em redor do objetivo a médio prazo.
Os preços dos produtos energéticos ultrapassaram a trajetória de referência indicada nas projeções de setembro elaboradas por especialistas do BCE. Por conseguinte, é provável que se verifique uma nova subida da inflação a curto prazo e que a inflação global se mantenha muito acima do objetivo nos próximos trimestres. Subsequentemente, a descida da inflação dos preços dos produtos energéticos, em conjugação com os efeitos das taxas de juro mais elevadas, deverá apoiar o regresso da inflação ao objetivo.
Avaliação dos riscos
Os riscos para as perspetivas de crescimento apresentam-se em sentido descendente. Tal deve-se, em especial, ao conflito no Médio Oriente e à recente evolução da guerra injustificada da Rússia contra a Ucrânia. A continuação da perturbação do abastecimento energético poderia aumentar mais os preços dos produtos energéticos e durante mais tempo do que o atualmente esperado, o que pesaria sobre os rendimentos reais, a despesa e o investimento. Uma deterioração do sentimento nos mercados financeiros mundiais ou uma intensificação das repercussões nos mercados obrigacionistas mundiais poderiam aumentar a restritividade das condições de financiamento e, desse modo, travar a procura. A incerteza orçamental pode igualmente tornar as condições de financiamento ainda mais restritivas e enfraquecer a confiança, reduzindo, assim, o consumo e o investimento. Um ressurgimento de tensões comerciais entre as principais economias poderia perturbar mais as cadeias de abastecimento e reduzir as exportações, além de enfraquecer o consumo e o investimento. Em contrapartida, o crescimento poderia revelar-se mais elevado, caso a economia e os mercados energéticos se adaptassem mais rapidamente do que o esperado às perturbações causadas pelos atuais conflitos ou estes fossem solucionados de forma sustentável. Além disso, a adoção de novas tecnologias pelas empresas da área do euro e a despesa pública em infraestruturas e defesa, bem como reformas destinadas a fomentar a produtividade e a completar o mercado único da União Europeia, poderão aumentar o crescimento mais do que o previsto.
Os riscos para as perspetivas de inflação apresentam-se em sentido ascendente. Tal deve-se, em especial, ao conflito no Médio Oriente e à recente evolução da guerra injustificada da Rússia contra a Ucrânia. O choque energético poderia continuar a intensificar-se e os seus efeitos em outros preços e nos salários poderiam ser mais fortes do que o presentemente esperado. Os preços do gás, em particular, poderiam subir, caso se verificassem novas perturbações no abastecimento ou um inverno invulgarmente frio coincidisse com níveis baixos de armazenamento. Quanto mais tempo os preços dos produtos energéticos se mantiverem elevados, mais provável será que impulsionem a inflação em geral por via de efeitos indiretos e de segunda ordem. Novas tensões comerciais poderiam gerar cadeias de abastecimento mundiais mais fragmentadas, limitar a oferta de matérias-primas críticas e agravar as restrições em termos de capacidade produtiva da economia da área do euro. Fenómenos meteorológicos extremos – potencialmente agravados pela intensificação das condições geradas pelo “El Niño” – e, mais em geral, as crises em curso relacionadas com o clima e a natureza poderiam elevar os preços dos produtos alimentares mais do que o esperado. Em contraste, a inflação poderia revelar-se inferior, se os atuais conflitos geopolíticos fossem solucionados de forma sustentável ou se os efeitos indiretos ou de segunda ordem dos preços mais elevados dos produtos energéticos fossem menos pronunciados do que o previsto. Mercados financeiros mais voláteis e avessos ao risco, a par de taxas de juro de longo prazo mais elevadas, poderiam pesar sobre a procura e, por conseguinte, também fazer baixar a inflação.
Condições monetárias e financeiras
As condições financeiras tornaram-se mais restritivas desde a nossa anterior reunião. As taxas de juro, em geral, subiram e os preços das ações desceram.
O custo da dívida baseada no mercado subiu para as empresas, passando de 4,0% em julho para 4,1% em agosto, enquanto as taxas aplicadas pelos bancos no crédito às empresas permaneceram em 3,8%. O crescimento do crédito bancário às empresas abrandou para uma taxa homóloga de 4,2% em agosto e setembro, o que compara com 4,4% em julho, ao passo que a emissão de obrigações de empresas registou uma taxa de crescimento homóloga de 4,2% em setembro, tendo subido de 3,8% em agosto e 3,5% em julho. Os critérios aplicados aos empréstimos às empresas tornaram-se mais restritivos no terceiro trimestre, como indicado no nosso mais recente inquérito aos bancos sobre o mercado de crédito, no âmbito do qual os bancos reportaram preocupações com os riscos económicos enfrentados pelos seus clientes. Não obstante as maiores necessidades de financiamento de existências e de fundo de maneio, a procura de empréstimos pelas empresas diminuiu, refletindo, em especial, as taxas de juro mais altas.
As taxas de juro dos empréstimos à habitação subiram de 3,5% em julho para 3,6% em agosto, enquanto o crescimento do crédito hipotecário desceu ligeiramente para 3,0% em setembro. Os critérios de concessão de crédito à habitação permaneceram inalterados no terceiro trimestre, ao passo que a procura de empréstimos para aquisição de habitação diminuiu substancialmente, devido às taxas de juro mais elevadas.
Conclusão
O Conselho do BCE decidiu hoje manter as três taxas de juro diretoras do BCE inalteradas. Estamos empenhados em definir a política monetária de modo a assegurar que a inflação estabiliza no objetivo de 2% a médio prazo. Seguiremos uma abordagem dependente dos dados e reunião a reunião na definição da orientação apropriada da política monetária. As nossas decisões sobre as taxas de juro basear-se-ão na avaliação das perspetivas de inflação e dos riscos em torno das mesmas – à luz dos dados económicos e financeiros que forem sendo disponibilizados –, bem como da dinâmica da inflação subjacente e da força da transmissão da política monetária. Não nos comprometemos previamente com uma trajetória de taxas específica.
Em qualquer caso, estamos preparados para ajustar todos os instrumentos ao nosso dispor, no âmbito do nosso mandato, com vista a garantir que a inflação estabiliza, de forma sustentada, no nosso objetivo de médio prazo e a preservar o bom funcionamento da transmissão da política monetária.
Estamos agora à disposição para responder a perguntas.
Para a formulação exata acordada pelo Conselho do BCE, consultar a versão em língua inglesa.
Banco Central Europeu
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